Minha razão de viver

Não é dificil encontrar pessoas que, em um certo momento da vida, começam a perguntar para si mesmas sobre qual é a verdadeira razão de viver. Eu mesmo já passei por um momento como estes. Em 1998, passei a sentir uma certa falta de respostas para a minha pergunta: por quê estou aqui? O que devo fazer? Para quê vim a este mundo e para onde irei? Haviam várias respostas, e em cada lugar por onde eu procurava, existia uma resposta diferente.

Durante vários anos, fui educado e ensinado pelos meus pais da mesma forma que a maioria das crianças e jovens é ensinado. Ou seja, a recomendação dos pais eram algo do tipo: vá para a escola, tire notas boas, para que um dia você possa arrumar um bom emprego. E aos domingos, vá à missa e frequente o catecismo. Então, como filho obediente que fui, segui todos os conselhos e orientações dos meus pais. Será que você também faz ou fazia o mesmo?

Chegou um certo ponto em que eu não conseguia mais aceitar as respostas da forma que me eram dadas. Eu passei a sentir um certo vazio, um sentimento de desconforto. Era como se alguma coisa estivesse faltando. Era como se em todas as respostas que as pessoas me davam não havia a a resposta que eu estava procurando, ou não apresentava a resposta correta. As intenções eram todas boas, afinal, os meus pais sempre procuravam fazer o melhor que podiam por mim, dentro das possibilidades deles. Então, comecei a olhar com um pouco mais de atenção para dentro da igreja, afim de procurar as respostas para a minha pergunta: qual era a razão de viver?

Naquela época, eu já estava com quase 22 anos. Com um pouco de má vontade e meio que por obrigação, eu comecei a frequentar todas as aulas do catecismo. Eu não tinha nada contra ao que era ensinado, e era respeitado por todos os alunos, além de respeitar a todos também. O problema era que eu achava aquilo tudo muito cansantivo, e o sentimento que eu tinha era como se aquelas aulas não estavam sendo o alimento que saciava minha fome. Tudo era muito bem-explicado e os professores eram bastante dedicados, mas tudo que era falado não era o que eu estava procurando. Eles até poderiam estar corretos e ensinando com sinceridade, mas eu ainda sentia que faltava alguma coisa.

Em algum momento que eu não sei precisar exatamente quando, comecei a abrir a bíblia para ler. Foi meio que involuntário. Ninguém jamais havia pedido para eu fazer isso. Simplesmente, abri e comecei a ler. Como um faminto à procura de comida, comecei a procurar ali o meu sustento, para preencher a fome que eu tinha por respostas. O mais curioso para mim naquele momento foi que eu não tinha a menor idéia do que iria encontrar, ou do que iria aprender ao ler a bíblia. Por que eu resolve abrir a bíblia? Não sei. Só sei que abri e comecei a ler, como que por “instinto”.

De alguma forma, a minha consciência – se posso dizer assim – fez com que eu fosse buscar na bíblia as informações das quais eu precisava para entender sobre a razão de viver. E, conforme eu fui lendo, percebi algumas coisas que estavam em oposição ao que eu percebia ao meu redor. Aos poucos, fui entendendo que as pessoas ensinavam-me certas coisas que, na bíblia, não eram confirmadas ou eram explicadas de forma diferente. Continuei minha busca pela motivação de viver, mas também, a cada página de leitura terminada, passei a ter mais saciedade, ou seja, aquela sensação de vazio e de perguntas sem resposta começou a ir, aos poucos, embora. Mas, precisei tomar um rumo diferente se quisesse viver da forma como eu acreditava ser a mais condizente com o real motivo para viver. Ou em outras palavras, eu tinha que tomar a decisão de viver com motivação, de ter uma razão para viver.

Em um certo momento, no final do ano de 1998, eu conheci um amigo o qual teve a paciência e a preocupação necessárias para lidar com alguém como eu, que havia sofrido muito com preconceito, com desprezo e com humilhação. Sentia-me um “lixo humano” naquela época, e era como se todas as pessoas do mundo tivessem me rejeitado. E, como eu já vinha tendo problemas com a timidez, aquela sincera amizade foi como um alívio para uma profunda dor. E foi neste momento que o tal amigo começou a falar de uma pessoa chamada “Jesus”.

Como eu já vinha lendo a bíblia por algum tempo, e praticamente todos nós já ouvimos falar de Jesus, principalmente na época de Natal e em feriados religiosos, não tive muitos problemas em entender o que este meu amigo estava falando. Só que os problemas – ou melhor, as dúvidas – começaram quando ele passou a falar sobre como ele vivia e relacionava-se com Jesus. Ora, mas como assim relacionar-se com Jesus? Era algo no qual eu nunca havia ouvido falar. Era uma forma nova de ver o mesmo assunto, ou seja, todos nós já ouvimos falar sobre Deus, sobre Jesus, mas nem sempre ouvimos falar sobre todas as coisas sobre essas pessoas.

Até pouco tempo atrás, a idéia que eu tinha era que Deus e Jesus eram alguém para os quais nós rezávamos e pedíamos ajuda, por causa de problemas que passávamos, como doenças, alguma tragédia que tivesse acontecido conosco ou para pedir ajuda em alguma situação difícil. E além disso, Deus e Jesus eram pessoas que estavam lá no céu, em um lugar bem longe, e que nós podíamos falar com eles através da atitude que as pessoas chamavam de “rezar”, porém o contrário não seria possível (pelo menos, ninguém havia ensinado-me ou dito para mim que seria possível) ouví-los falar conosco. Então, parecia bem estranho para mim, agora, aprender que eles poderiam falar comigo também. Eles eram ou não eram pessoas? E pessoas falam, não falam?

Então, no começo do ano de 1999, ao ver uma apresentação teatral em frente ao mar, que acontecia durante a manhã em um final de semana no qual eu havia saído para fazer uma caminhada matinal, tive que parar para olhar. O grupo teatral estava encenando uma certa situação justamente da época que Jesus viveu no mundo. Mas o engraçado foi a forma como eu parei para olhar a tal peça. Sendo que eu tinha saído para caminhar, era essa a minha motivação para sair e ao ver o grupo de jovens fazendo aquela apresentação, por um momento eu olhei para eles mas não quis ficar olhando, e então segui em frente. Só que começou a chover, poucos minutos depois, e por isso resolvi voltar. Ao passar pelos jovens que já estavam apresentando a peça, decidi ficar ali olhando. E não é que a chuva parou?!

Terminando a peça, um dos meninos que ali estavam aproximou-se e me perguntou: – “Você quer receber Jesus como Senhor e Salvador de sua vida?”, E falou-me algumas coisas mais. Sem muita dificuldade, respondi que sim, afinal, o que teria a perder? E além do mais, este Jesus sobre o qual eu havia lendo e aprendendo ultimamente, somado ao fato de que eu havia descoberto que ele é uma pessoa que, como o próprio nome diz, é uma “pessoa” – com capacidade para ver, ouvir, falar – parecia-me uma pessoa boa, e por isso, a decisão foi bem fácil. E uma outra coisa que chamou minha atenção foi para o “dom da vida eterna”, o que para alguém que, como eu, sentia verdadeiro pânico em somente pensar na morte, foi uma notícia bem agradável.

Agradeci aos jovens que deram-me um pouco de atenção, peguei um folheto que eles deixaram comigo, e voltei para casa, inexplicavelmente com uma sensação de prazer diferente, emocionalmente falando. Era como se eu estivesse mais “leve”, e algum peso havia sido retirado de minhas costas. Comecei a refletir um pouco naquilo que o rapaz da peça teatral havia falado, sobre entregar a vida para Jesus. No início, senti um pouco de drama ou de sacrifício nessa palavra, afinal, eu tinha que entregar a minha própria vida! Mas, como alguém que se atira sobre as nuvens e salta de pára-quedas, confiando que o pára-quedas vai abrir, eu literalmente me atirei naquela decisão que havia tomado, e depositei todas as minhas esperanças e confiança naquela que poderia cuidar da minha vida bem melhor do que eu mesmo, pois de alguma maneira, passei a acreditar profundamente nisso. Depois, descobrir que o “acreditar profundamente” era o que as pessoas chamavam de “Fé”.

Logo vieram as primeiras experiências neste novo relacionamento no qual eu havia entrado, pois eu havia convidado uma nova pessoa para entrar em minha vida, mas não apenas entrar em minha vida, mas assumir o controle dela, assumir o comando, ou seja, passando o controle e o domínio de mim mesmo para que esta pessoa tivesse toda a autonomia, toda a liderança sobre eu mesmo. Que coisa incrível, não é? Ninguém, em sã consciência, faria isso consigo mesmo, ou seja, entregar-se à si mesmo para o domínio de outra pessoa, como em uma relação de escravidão.

Neste caso, a relação que melhor representa minha relção com Jesus é a de Pai e filho. E não apenas a de um filho, mas de um filho recém-nascido, pois era nesta situação em que encontrava-me. Assim como uma criança incapaz de perceber o mundo ao seu redor e de proteger-se por si própria, assim somos nós quando nos damos conta de que precisamos de alguém para ser o nosso pai. Assim como todos nós tivemos pais que nos protegeram e nos alimentaram em uma época que não podíamos fazer isso por conta própria, assim é o nosso relacionamento com Deus, continuando assim por toda a nossa vida.

Com o passar do tempo, logo compreendi que havia encontrado a razão de viver. O motivo de viver estava nele, no pai que eu acabava de encontrar, embora já tivesse ouvido falar de diversas formas. Contudo, a questão não é ouvir falar de alguém, mas sim a convivência com este alguém. Isto sim faz toda a diferença. Assim como um pai precisa conviver com seu filho para que seja verdadeiramente pai – aquele que educa, que disciplina, que cuida e que protege – nós também necessitamos dessa relação aberta e profunda com Deus, que viver a relação pai-filho da maneira mais completa e verdadeira.

Depois, percebi que Deus buscava e sempre busca este relacionamento com todas as pessoas, com todos os seres humanos que habitam este planeta. Ninguém, nenhum de nós pode e deve sentir-se sozinho, isolado, desprezado ou rejeitado, porque todos nós temos um pai à nossa espera. E nós só precisamos saber disso e querer recuperar este relacionamento, que precisa ser recuperado. Descobri que um dia, há muito tempo atrás, este relacionamento entre nós e o pai, ou seja, entre nós e Deus, era um relacionamento perfeito e lindo, mas este relacionamento foi quebrado. Mas, ainda bem que Deus encontrou uma forma de renovar este relacionamento, e torná-lo possível outra vez.

Quando eu sentia aquela sensação de vazio interior, de que algo estava faltando mas eu não sabia o que era, era a falta daquele pai que sempre estava aqui, a espera deste convívio, porém não havia como saber se alguém não mostrasse que isso era possível. Quando nós somos abatidos e humilhados por este mundo, quando as pessoas nos dão as costas e traem nossa confiança, quando nós somos rejeitados e nos fazem sentir incapazes de qualquer coisa, é aí que chegamos a conclusão de que as pessoas não são capazes o bastante para nos fazerem realmente felizes. Ou mais: descobrimos que a felilcidade ou a motivação de viver não está nas pessoas e que elas não têm condição de proporcionar a nossa alegria e o nosso prazer de viver. Não é nas pessoas que encontramos a razão de viver. Somos imperfeitos, com várias falhas e defeitos, os quais nos impedem de sermos infalíveis. Invariavelmente, magoamos as pessoas e, involuntariamente, fazemos as pessoas tristes sem que sequer tenhamos a oportunidade de perceber isso.

O amor sempre me pareceu uma riqueza muito difícil de encontrar e de manter. Era essa a busca que me acompanhava, ao lado daquele vazio interior. Em um determinado momento da vida, sentimos a necessidade de sermos amados, de receber amor. Quantos de nós já tivemos a sensação de que amamos alguém mais do que somos amados? Você já teve essa impressão? Você já sentiu que alguém te amava menos do que você amava esta pessoa? É muito ruim, não é?

Depois de algumas desilusões amorosas e tristezas provocadas por amores não correspondidos (amor não correspondido é algo que também nos causa profunda dor), decidi que meu coração dificilmente estaria em boas mãos, sejam com quem quer que fosse. Foi quando, na busca pela razão de viver, pude conhecer a pessoa de Jesus e que, ele sim, era o único digno e confiável de receber o nosso coração, por completo, sem qualquer receio da nossa parte.

Quantas vezes tivemos medo de amar alguém, de começar um relacionamento, um namoro, com medo de que a outra pessoa pudesse ferir-nos, ser infiel ou nos magoar? Este é um medo traumatizante e paralizante. É um medo que impede-nos de confiar facilmente, novamente, em alguém. Mas foi aqui que aprendi algo: as pessoas sempre irão causar-nos alguma dor, e além disso, as pessoas sempre procuram reciprocidade, ou seja, você precisa fazer com que alguém goste de você. Os relacionamentos são assim. Ninguém gosta de outra pessoa por acaso, mas sim por aquilo que a outra pessoa pode lhe proporcionar, em aspectos emocionais e materiais. Somos pessoas que procuramos afeto, respeito e amor, e assim como nós procuramos tudo isso, as outras pessoas fazem o mesmo.

Com Jesus, é diferente. Pode uma pessoa amar alguém incondicionalmente, ou seja, sem que aquela pessoa tenha feito alguma coisa para que possamos amá-la? É bem difícil. Encontramos apenas uma única forma de amor incondicional: o amor dos pais pelos filhos. Os filhos nada fizeram para que seus pais o amassem. Os pais, simplesmente, o amam. É assim com Deus. Como um pai que Ele é, somos amados sem que tenhamos de fazer alguma coisa para sermos merecedores deste amor.

Mas, há algo mais maravilhoso dentro deste relacionamento, entre nós e Jesus. Independentemente de nossas falhas de caráter, de nossos erros e de nossas imperfeições, sejam elas físicas ou emocionais, Jesus nos concede seu amor da mesma forma. Não seria assim se estivéssemos falando de uma pessoa comum, não é? Quantos casais, quantas famílias e quantas amizades foram destruídas pelos problemas e por erros cometidos entre as pessoas que conviviam juntas. Em muitas situações, os erros não são superados e nem perdoados, fazendo com que as pessoas terminem um relacionamento que pode ter durado muito anos.

Hoje, vejo que as pessoas, a humanidade, precisa conhecer o mais breve possível a este pai que sempre nos esperou. Sem ele, é como se vivêssemos sempre incompletos, sem sentido e sem razão para viver. Foi nele que encontrei a mim mesmo, vencendo as feridas e apagando as cicatrizes que as outras pessoas deixaram marcadas em minha alma. Este é o relacionamento que mais vale a pena e que faz de nossa vida uma vida com sentido e com propósitos.

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