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Dar tempo aos filhos é uma opção ou um privilégio?

Wednesday, June 11th, 2014

My Family

Resolvi escrever sobre o tema porque o assunto é polêmico. Alguns afirmam que o tempo dedicado aos filhos é uma questão de mera decisão, ou seja, uma atitude que eu escolho ter, sem pressão ou influência externas.

Afinal, dar tempo aos filhos é uma opção ou um privilégio? A resposta, segundo minha pequena experiência, é “depende”.

Trabalho em casa desde o final de 2010. Naquela ocasião, minha esposa já tinha deixado o emprego, e preparava-se para assumir a função de mãe. Mas, estávamos iniciando nosso próprio negócio, trabalhando em casa, o que nos permitiu adotar uma rotina familiar bem diferente do que encontramos no Brasil.

Segundo as estatísticas mais recentes, mais de 64% das mulheres trabalham fora, e mais de 74% das famílias são sustentadas pelos dois cônjuges, ou seja, homem e mulher trabalham. Nesse caso, fica fácil entender que os pais precisam tomar uma decisão difícil, logo após o término da licença-maternidade. Com quem deixar seu filho: com os avós ou parentes, contratar uma babá, matricular o bebê em um berçário ou, a última opção para muitos, recorrer à creche pública?

Durante a gestação de minha esposa, e até minha filha completar 1 ano, o sistema home-office convivia perfeitamente com o estilo de vida de quem trabalha em casa e têm ao seu lado a companhia dos filhos. Até esta idade, as crianças ainda não começaram a caminhar, e irão dar seus primeiros passos entre os 10-12 meses, em média. Nesse período, elas passam praticamente todo o tempo no berço, bebê-conforto, no carrinho, cercadinho, em um colchonete na sala ou nos braços dos avós ou de uma babá. Assim, não há maiores dificuldades em trabalhar com relativa tranquilidade. As interrupções, nesta fase, costumam ser para realizar as tarefas básicas de cuidados com o bebê: alimentação ou amamentação, troca de fraldas, banho e colocar o pequeno para dormir.

Mas é a partir de 1 ano, quando o bebê deixa de ser bebê, e torna-se uma pequena criança ao dar seus primeiros passinhos. É neste momento quando nossos filhos irão em busca de conhecer o ambiente, de explorar a casa. Suas mãozinhas agora estão sob controle, e eles podem começar a tocar e pegar objetos – nem sempre seguros. Aquele bebê que permanecia fora de perigo dentro do berço ou do carrinho, agora, têm diante de si um amplo espaço para caminhar, e mesmo com sua pequena caminhada, é o suficiente para que seja necessário o olhar atento de um adulto. Na medida em que a criança cresce, cresce proporcionalmente o tempo de dedicação necessária por parte de um adulto.

Tivemos a sorte de contar com a ajuda dos “avós-babá”. Meu pai teve um papel predominante na criação dos filhos, quando eu e meu irmão éramos pequenos, enquanto minha mãe trabalhava em dois empregos na área médico-hospitalar, fazendo o papel de provedora do lar. Isto deu a prática necessária para que meu pai pudesse cuidar da Giovanna, enquanto eu e minha esposa trabalhávamos. 

Estatísticas revelam que 37,3% das famílias brasileiras são chefiadas por mulheres. Com jornada dupla, minha mãe passava quase 18 horas por dia trabalhando fora. Meu pai era zelador, e seu expediente seguia o horário comercial. Posso dizer que, de certa forma, fui criado pela televisão e ao lado de brinquedos. Para compensar sua ausência, e provavelmente no anseio de fazer algo pelos filhos e vê-los felizes, minha mãe fazia seu melhor para dar presentes sempre que possível. O grande quintal nos fundos da casa onde morávamos permitia que as crianças brincassem juntas, e assim fazíamos muitas amizades. Talvez isso contribui um pouco para diminuir o vazio deixado ausência dos pais, não porquê eles decidiram trabalhar, mas simplesmente porque eles precisavam.

Com o tempo, percebi que a frequência com que meu pai tinha que cuidar de minha filha era constante, e isto causou-me a impressão de que eu não estava dedicando tempo adequado para convivência com ela. Mas, ao refletir sobre a realidade da maioria das famílias, eu percebi que isso não era apenas uma questão de simples escolha dos pais (minha ou de minha esposa), mas sim um privilégio e uma benção.

Enquanto conseguimos construir um negócio para trabalhar em nossa residência, a maioria das famílias não teve ainda a mesma oportunidade. Trabalhei por quase 15 anos como funcionário em duas empresas, onde na última era necessário que eu levantasse as 5h da manhã, e chegava em casa por volta das 8 horas da noite. Quando os dois cônjuges têm a mesma rotina de jornada de trabalho, trabalhar em período integral, encontrar tempo e energia para dedicar atenção e tempo de qualidade com os filhos não é tarefa das mais simples. Conheci vários amigos que, ao sair de casa para trabalhar, deixavam os filhos dormindo, e ao chegar em casa eles já tinham ido dormir. Muitos destes amigos chegaram a dizer: – “Não vi meus filhos crescerem”. Esta condições pouco animadora é comum na grande maioria das famílias, no Brasil e provavelmente em várias partes do mundo.

Então, quando olhamos para nossa própria condição e circunstância, dar tempo aos filhos pode ser uma questão de escolha e decisão pessoal. Eu particularmente posso brincar com minha filha desde a hora em que ela acorda até o momento em que ela vai para a escolinha (maternal). Quando ela volta, lá pelas 17h, posso eventualmente continuar brincando e brincando, até a hora de dormir – se depender dela, naturalmente ela não pára de brincar para tomar banho ou comer. Enquanto isso, devo dizer que a mamãe está lá no computador, tomando conta do trabalho que fazemos em casa. Se não fosse assim, eu não poderia estar com minha filha. Portanto, um dos dois têm que estar trabalhando.

Mas quando olhamos sob um ponto de vista maior, compreendemos que dar tempo aos filhos é um privilégio, uma benção, um presente de Deus. Se a mãe está em casa com seu filho, provavelmente seu marido está lá fora, trabalhando. Se o marido está em casa com seu filho, provavelmente sua esposa está provendo o sustento para sua casa. Se apenas um dos dois precisa trabalhar, tudo indica que o ganho proveniente de um dos cônjuges é suficiente para a subsistência do lar, pelo menos para as necessidades básicas. Quando os dois precisam trabalhar, a razão para isso é que normalmente o salário de casa cônjuge não é suficiente para, sozinho, suportar as despesas da casa. Então, a única saída é fazer a opção entre babá, creche/berçário ou avós/parentes, para deixar nossos filhos enquanto trabalhamos.

Nossos filhos querem nosso tempo, e definitivamente é ótimo estar com eles, afinal, a infância é a fase da vida que passa mais rápido. A fase que começa a partir de 1 ano, e prolonga-se pelos próximos 3 anos pelo menos, é divertida e mágica. Tudo é festa, brincadeira e alegria. Ao mesmo tempo em que desejamos ficar com nossos filhos, queremos proporcionar à eles o melhor em termos de alimentação, educação, vestuário, lazer e tudo mais – e tudo isso se consegue, neste mundo em que vivemos, às custas de capacidade financeira – ou trabalho.

Quando conseguimos equilibrar essas duas importantes áreas em nossas vidas – tempo de qualidade com os filhos e estabilidade financeira – teremos maior satisfação e realização por ter cumprido nosso papel como pais e provedores da família. Talvez este equilíbrio ainda esteja longe da maioria dos pais e mães, mas é possível conquistar essa liberdade e este presente que é estar com os filhos pelo maior tempo possível, ao mesmo tempo em que o cuidado com as finanças não precisa ser deixado de lado. Se você está em casa com seu filho, provavelmente alguém foi à luta por vocês e está garantindo que as condições do lar sejam as melhores possíveis.